Os testemunhos de pacientes são uma fonte de informação fiável antes de ir a uma clínica?

Vídeos de testemunhos de pacientes: experiência ou marketing?

As redes sociais e o universo online ganharam importância nas últimas décadas em todas as áreas das nossas vidas. De acordo com Wirght et al (2001) cerca de 8% dos pacientes investigam os seus sintomas antes de ir ao médico. Este hábito pode perfeitamente ser extrapolado para a clínica odontológica.

Um aspeto importante que os pacientes podem querer saber é a existência e a eficácia de novos tratamentos. A este respeito, os pacientes não têm formação suficiente para consultar os documentos científicos que são utilizados pelos profissionais e que estão na base da aplicação clínica destes novos tratamentos.

Os pacientes podem preferir, como muitas vezes acontece noutras situações relacionadas com o setor dos serviços, conhecer e confiar em informações de outros pacientes, seguindo o mesmo padrão que vemos em páginas de internet de restaurantes ou hotéis.

Perante este cenário colocam-se várias questões. Por exemplo, que tipo de informação chega aos potenciais pacientes desta forma? Essa informação está correta? Não se pretende culpabilizar ou desculpar a informação em si, pois o paciente nunca vai conseguir ter em seu poder todas as respostas para um tratamento, para lá de sua experiência, mas sim conhecer esta realidade e tomá-la em consideração.

Num artigo muito recente, publicado em 2017, Adrian Ho et al (2017) ) pesquisaram depoimentos em vídeo de pacientes sobre tratamentos de implantes dentários publicados no YouTube, e analisaram as informações contidas nesses vídeos, em comparação com uma fonte considerada como padrão de excelência (o Livro de perguntas e respostas para o paciente candidato a implantes, publicado pela European Association of Osseointegration).

As conclusões do estudo produziram alguns dados muito interessantes. Por exemplo, a grande maioria dos vídeos focava-se apenas num ou dois pontos de informação, sem entrar na complexidade deste tipo de tratamento. Os pontos mais discutidos são o potencial dos implantes para melhorar a estética, o potencial dos implantes para melhorar a funcionalidade e as vantagens dos implantes dentários sobre as outras opções de tratamento.

Mais importantes são os dados que não aparecem em nenhum dos vídeos analisados. Não houve menções sobre contraindicações relativas (fumadores, por exemplo), nem de alternativas ao aumento ósseo (implantes angulados ou implantes curtos, apesar de se terem encontrado vídeos em que se falava do aumento ósseo), nem do alto risco de complicações em pacientes periodontais.

A biologia dos implantes, os materiais, componentes, e os riscos, tanto cirúrgicos como a nível das próteses dentárias foram apenas abordados em menos de 2% dos vídeos analisados, e nenhum deles falava sobre a possibilidade de doenças relativas aos implantes.

Vemos que os vídeos apresentam uma visão muito positiva (mas irreal) do tratamento implantológico. Além disso, Ho et al. identificaram várias ideias particularmente perigosas: “Os implantes são melhores que os dentes naturais“; “Já não vou ter de me preocupar nunca mais com a minha boca”,…

Portanto, os vídeos de testemunhos de pacientes parecem ser bastante tendenciosos e o seu valor educativo/informativo é muito limitado. Em relação à forma como estes vídeos são realizados, o estudo de Ho et al oferece dados interessantes, mas ao mesmo tempo preocupantes.

A maioria dos vídeos foi feita no gabinete ou no consultório odontológico, não na casa do paciente. Isso implica que o profissional teve algo a ver com a produção desse vídeo. A prova definitiva disso é que os vídeos são colocados no YouTube principalmente por clínicas ou profissionais de odontologia. Não é estranho?… testemunhos de pacientes gravados em vídeo em clínicas odontológicas e publicados no YouTube por profissionais?

Adicionando ambos os aspetos, atrevemo-nos a fazer alguns comentários para o futuro e para concluir esta publicação. 1) Os pacientes devem estar cientes das limitações informativas de tais vídeos e da possível tendenciosidade ao serem feitos e publicados principalmente por profissionais, e não por iniciativa do paciente. 2) Os dentistas devem saber que os pacientes hoje em dia têm provavelmente demasiada informação sobre os benefícios do tratamento com implantes, mas estão pouco ou nada informados sobre os riscos e complicações, por isso devem insistir sobre este ponto ao informar os pacientes. 3) Os profissionais que publicam vídeos com testemunhos de pacientes são de certa forma responsáveis pela informação publicada. Nesse sentido, Ho et al. identificam exemplos de “boas práticas“. Num dos vídeos analisados, após algumas frases do paciente, o médico aparecia para explicar as incorreções e completar a ideia de que o paciente iria ser transferido. Esta seria uma boa maneira de não “adulterar” a opinião do paciente no vídeo, mas corrigi-la ou complementá-la, se necessário.

Pergunta: De que outras formas acha que se pode melhorar este aspeto?

Bibliografia:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11764418
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27279455
https://www.eao.org/en