Traumatismos no paciente pediátrico

As lesões traumáticas na dentição temporária constituem um dos principais motivos de consulta. Deve-se salientar que estas lesões podem ter consequências a longo prazo que afetam a dentição permanente. A inconveniência principal prende-se com a pouca idade do paciente, que às vezes pode limitar a sua colaboração, além da urgência e ansiedade que podem afetar os pais. Hoje em dia, o traumatismo dentário é a segunda causa de atendimento odontológico após a cárie dentária. O estilo de vida moderno, a prática de desporto e os acidentes de trânsito são as causas mais frequentes do aumento do traumatismo dentário, sem esquecer a criança vítima de abuso e as situações de violência.

O traumatismo dentário pode variar de um simples dano do esmalte à avulsão do dente para fora do alvéolo. A classificação que mostramos a seguir foi descrita por Andreasen e é universal. As lesões traumáticas são classificadas consoante afetem os tecidos duros e a polpa, os tecidos periodontais, os tecidos moles ou, por fim, se afetam o osso.

Nos traumatismos dentários em crianças, a polpa é frequentemente afetada, com o consequente risco de desenvolver uma infeção odontológica, causada pela patologia que ocorre ao nível da polpa e ao nível periapical.

Quando uma criança sofre um traumatismo dentário, devemos primeiro diferenciar se o dente afetado é temporário ou permanente, porque as diretrizes a seguir serão diferentes. Ao receber a chamada na nossa clínica de que uma criança sofreu um trauma, este despiste servirá como a primeira fonte de informação diagnóstica. Descartaremos a existência de outra lesão que requer atenção prioritária, em cujo caso deverá dirigir-se ao hospital mais próximo. Uma vez que a criança esteja na consulta, faremos uma rápida inspeção clínica para avaliar a extensão das lesões. Limpe cuidadosamente a área traumatizada com uma solução antisséptica. É importante saber o tempo decorrido entre o trauma e a realização da exploração. Analisaremos a causa do trauma, bem como o local onde ocorreu, uma vez que se a criança tiver sofrido lesões nos tecidos moles com um objeto contaminado, será necessário aplicar a proteção contra o tétano. É muito importante investigar se há dor espontânea em qualquer dente, ou quando se aplica um estímulo, o que nos fará suspeitar de uma exposição de dentina ou polpa.

Após a correta anamnese e exame clínico, resolvemos a tríade clássica antes de qualquer trauma: Onde? Como? Quando? Procederemos a avaliar a magnitude das lesões através de um exame clínico completo, intra e extra-oral. Para completar o nosso diagnóstico, devemos realizar um exame radiográfico.

As complicações que podem ocorrer após uma lesão traumática podem incluir uma série de sinais e sintomas que acompanham a inflamação ou a degeneração da polpa ou do ligamento periodontal. Entre estes, encontramos os seguintes processos: pulpite, necrose, revascularização da polpa, alteração de cor da coroa, obliteração do canal, alterações do desenvolvimento radicular e reabsorção radicular.

Muitas das alterações patológicas que podem aparecer após o trauma dentário não acontecem imediatamente, de modo que as lesões periapicais devido à necrose da polpa que podem causar traumatismo dentário podem ser detetadas através do raio-x após três semanas. Da mesma forma, após 6-7 semanas podem ser detetados nas radiografias sinais de reabsorção radicular ou anquilose. Portanto, é necessário estabelecer um acompanhamento clínico e radiográfico periódico após o trauma. Na ausência de sinais ou sintomas, o acompanhamento radiográfico será adiado para 6 meses.

Os pais devem ser informados sobre as possíveis complicações de um trauma dentário, o seu prognóstico e a probabilidade de lesão do germe do dente sucessor. Em casos de luxações, a higiene bucal da criança deve ser adequada, recomendamos o uso de soluções antissépticas de clorexidina a 0,2% durante 7 dias.

Também recomendamos uma dieta mole e, em casos de luxações graves com danos significativos nos tecidos moles, serão prescritos antibióticos de amplo espectro. Além disso, os pais devem ser informados da necessidade de ir ao consultório para realizar os controlos periódicos estabelecidos, bem como qualquer alteração na condição do dente.

LESÕES DOS TECIDOS DUROS E DA POLPA

A mais simples é a fratura da coroa não complicada e vamos tratá-la polindo ou reconstruindo com resina para conservar a estética. É possível observar mudanças posteriores de cor devido à necrose da polpa.

No caso de fraturas complicadas da coroa, devemos proceder à pulpotomia, polpectomia ou extração, dependendo da vitalidade do tecido da polpa e do tempo decorrido desde a lesão. Na presença de um abscesso ou fístula, a extração do dente temporal deve ser feita o mais rapidamente possível.  Figura 1


Figura 1
Fraturas da raiz e da coroa são raras em dentes temporários.

LUXAÇÕES

A concussão e a subluxação passam muitas vezes despercebidas e só se verificam quando se observa uma mudança na cor do dente afetado. Recomenda-se dieta mole e higiene adequada, além de controlos periódicos.

A intrusão é uma das situações mais complicadas e arriscadas para o dente permanente. A exploração radiográfica ajuda a encontrar a localização do dente após o trauma e acompanhar a evolução. Quanto ao tratamento, quando não houver risco de lesão do dente permanente, aguardaremos cerca de seis semanas para a reerupção espontânea. Os controlos clínicos e radiográficos permitem avaliar possíveis complicações na polpa ou periodontais. Se houver suspeita de lesão permanente por germe, o tratamento de escolha será a extração imediata. Figura 2 A-B

Nos casos de extrusão em que o deslocamento dentário é pequeno, a mordida pode ser levantada até que o dente seja reposicionado com a ajuda da língua. Nos casos de deslocamentos mais significativos, aconselha-se a extração.

Em caso de avulsão, a maioria dos autores não recomenda a substituição do dente temporário, pois implica risco para o dente temporário e permanente.

O dentista deve planear o tratamento das lesões na dentição temporária, a fim de prevenir ou minimizar os danos do dente sucessor permanente. As lesões dependerão da intensidade e da direção em que o trauma ocorra. O tipo de lesão na dentição de leite determinará o risco de alteração no desenvolvimento do dente permanente. Portanto, a subluxação e a extrusão representam menos risco que a intrusão e a avulsão.

O desenvolvimento de dentes permanentes também pode ser alterado por múltiplas causas derivadas da dentição temporária.

Para o prognóstico de dentes traumatizados, é muito importante que se realize um tratamento adequado o mais rápido possível após o trauma. É por isso que devemos chamar a atenção de pais, educadores e profissionais de saúde, enfatizando que, sempre que ocorra este tipo de acidentes, a criança deve ser levada a uma clínica odontológica o mais rápido possível.

 

Bibliografía:

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